“Bem, meu nome é Maria, moro na mesma casa há mais de 20 anos, tive um filho a 26 anos atrás, mas ele foi raptado no dia em que nasceu, eu o procurei e nunca consegui ter nenhuma notícia dele, e desde que meu marido morreu há 15 anos atrás me sinto um tanto solitária, e por isso gosto de passar grande parte do meu dia sentada na minha cadeira de balanço que fica na varanda. Gosto de observar os moradores da minha rua. Sempre que passam eles esboçam um sorriso simpático e acenam para mim me cumprimentando, inclusive os jovens, pois vi todos eles crescerem correndo por aquela rua. Há mais ou menos um mês atrás a casa branca de portas e janelas vermelhas que ficava em frente a minha ficou vazia, a família que morava lá teve que se mudar e colocou a casa à venda. Hoje vi um caminhão de mudanças parado na frente da casa e uma bela jovem de cabelos ruivos, pele branquinha, de olhos castanhos-esverdeados, dizendo para onde os moços deveriam levar as caixas e os poucos móveis. Assim que o caminhão saiu, ela me viu e acenou com um sorriso simpático como se já me conhecesse há muito tempo, mas havia algo de errado com ela, seus olhos não pareciam alegres como sua boca tentava demonstrar. Sorri de volta e ela entrou em sua casa. Na manhã do dia seguinte vi a bela moça saindo cedo, e mais uma vez ela sorriu para mim com simpatia. De tarde quando voltava para casa, ela estava meio cabisbaixa então decidi chamá-la para quem sabe conversar um pouco. “Boa tarde” ela disse. Respondi ao cumprimento. “Qual seu nome?”, perguntei. “É Rafaela, e o da senhora?”. “Maria, mas todos sempre me chamam de Dona Maria”, ela sorriu meio sem jeito e disse. “Bem, tenho que ir para casa, ainda tenho que arrumar algumas coisas”. “Tudo bem. Volte depois se quiser comer alguns biscoitos e tomar chá”. “Não gosto de chá”, ela falou educadamente. “Mas aposto que adora café” eu disse e ela concordou sorrindo. Ela se foi. Na manhã seguinte a vi saindo cedo de novo, desta vez ela carregava um livro nas mãos. “Bom dia, Dona Maria” ela disse. “Bom dia, Rafaela” respondi e ela foi-se embora. Lá pelas quatro da tarde ela voltou e desta vez não estava cabisbaixa como na tarde anterior, desta vez ela vinha cantando. “Boa tarde,Rafaela. Como foi seu dia?” Ela se aproximou da escada da minha varanda e falou: “Foi muito bom Dona Maria. Consegui um emprego!” “Que ótimo! Aceita café?” ela balançou a cabeça afirmativamente. Foi até a cozinha e trouxe uma caneca para ela que estava sentada na escada. “Posso saber de onde você é Rafaela?” “Sou de Iowa” “E o que veio fazer aqui no Kansas?” o leve sorriso que ela mantinha em seus lábios desapareceu. “Me desculpe se estou sendo uma velha muito intrometida” apressei-me em dizer. Odeio quando acho que os jovens acham que sou fofoqueira ou algo do tipo, na verdade sou apenas curiosa e tudo que sei sobre os outros não saio espalhando por ai. “Está tudo bem. É que o motivo de eu ter vindo não é muito bom e não sei se estou pronta para falar sobre isso.” “Tudo bem.” Ela me entregou a caneca e foi para sua casa. Mesmo depois disso ela voltou a conversar comigo e evitei falar sobre a vinda dela para o Kansas. Ela passava em minha casa pelo menos umas quatro vezes por semana e conversávamos sobre a novela, sobre livros e muitas outras coisas e foi ai que percebi que Rafaela era uma garota incrível, e eu sentia que mesmo sendo muito jovem ela já havia perdido muita coisa e agora estava sozinha, assim como eu.
Depois de uns dois dias sem aparecer em minha casa, ela bateu na porta, era de noite e eu estava dentro de casa assistindo minha novela. Abri a porta e a convidei para entrar. “Aceita um café e biscoitos?” “Não, obrigado” “O que houve?” perguntei percebendo que ela estava ali porque queria conversar sobre algo. “Acho que estou sendo a pessoa mais idiota do mundo por vir aqui te incomodar. Acho melhor eu ir embora?” “Porque? Você não está incomodando. Tenho certeza disso” ela ficou em silêncio enquanto pensava se deveria ou não ficar ali e conversar. “Pode me dizer o que lhe aflige. Sou toda ouvidos” ela deu um sorriso muxo e começou a falar. “Lembra-se quando perguntou porque eu vim para cá?” Afirmei com um aceno de cabeça e então ela continuou. “Eu vim para cá para tentar começar uma vida nova depois que meus pais morreram em um acidente de carro. Eu era filha única e depois que eles se foram fiquei completamente sozinha. Quer dizer, não completamente, eu tinha um namorado. Namorávamos fazia mais de dois anos e meio. Depois da morte dos meus pais fiquei muito abalada com isso, mas ele parecia que não entendia e todos os dias queria me arrastar para baladas e quando eu me recusava a ir, ele simplesmente saia com raiva batendo a porta.” Ela fez uma pausa. Estava tentando não chorar ao se lembrar disso. “Até que um dia ele apareceu em minha casa às três horas da manhã completamente bêbado e então começou a gritar um monte de coisas horríveis e disse que já era para nós termos terminado a muito tempo e que ele nem sabia porque ainda estava namorando comigo, e no meio de seus insultos ele disse que havia me traído. Quando ele falou isso eu não aguentei e o coloquei pra fora de minha casa. E depois disso eu decidi que não queria mais ficar em Iowa. Eu tinha que ir para outro lugar e começar uma vida nova. Por isso vim para cá” Quando ela terminou seu triste relato lágrima escorriam pelo seu rosto. “Sinto muito pelo que aconteceu com você” eu disse passando a mão em seus cabelos. Ela se acalmou e me olhou com um sorriso leve. ” Minha mãe sempre passava a mão em meu cabelo quando eu estava triste.” Eu senti que eu havia me tornado sua melhor amiga e ela também havia se tornado a minha, apesar da grande diferença de idades eu sabia que ela conhecia a vida tão bem quanto eu. Então resolvi contar um pouco sobre mim. “Bem, sabia que há 15 anos atrás meu marido faleceu?” ela balançou a cabeça negativamente. “Ele faleceu há 15 anos. Nós éramos casados há mais de 20 anos. Foram 20 anos de muitas dificuldades, tristezas, alegrias, superações e mais um monte de emoções misturadas. Nós tivemos um filho, mas ele foi roubado de mim e eu nunca mais tive notícias nenhuma sobre ele. E depois disso eu nunca mais consegui ter filhos. Fiquei estéril. E quando ele se foi, meu mundo desmoronou pois eu não tinha mais ninguém além daquele homem. Depois de um tempo, cheguei a conclusão de que ele não iria querer que eu ficasse chorando pelos cantos, e então eu consegui superar sua partida. Mas até hoje, antes de dormir eu converso com ele e fico rindo sozinha relembrando nossos bons momentos.” “Vocês se amavam muito né?” “Sim” Ficamos uns minutos em silêncio até que ela disse: “Temos coisas em comum, nós duas perdemos quem amávamos e agora estamos sozinhas”. “Podemos até estar sozinhas aqui, mas tenho certeza que meu marido está sempre olhando por mim do mesmo jeito que seus pais estão olhando por você” ela deu um sorriso fraco. “E você não ficará só para sempre. Você é jovem e pode encontrar alguém para te fazer companhia”. Ela concordou com um leve aceno de cabeça. Logo depois ela foi embora. E eu fiquei pensando como ela tinha sorte de ser ainda tão jovem. Ela poderia muito bem encontrar um homem maravilhoso para lhe fazer companhia.
Três dias depois, Rafaela apareceu em minha casa toda sorridente. Já fazia 5 meses que ela morava em frente a minha casa, e em todo esse tempo eu nunca a tinha visto tão feliz. “Dona Maria, ontem conheci um rapaz maravilhoso. Ele é lindo!” ela falou com os olhos brilhando. “Ele tem os cabelos pretos, olhos negros e hipnotizantes, ah! ele é demais.” “Conte-me como o conheceu?” perguntei curiosa. Percebi que ela estava muito feliz e queria que ela compartilhasse essa felicidade comigo. “Nos conhecemos na cafeteria da esquina. Conversamos um bocado e ele me chamou para sair hoje a noite” “E você aceitou, certo?” “É claro” ela respondeu animadíssima. Eu estava parecendo uma adolescente que estava muito feliz por sua amiga ter conhecido alguém que a fizesse tão bem. Assim que me contou mais detalhes sobre o rapaz, ela foi embora, disse que tinha que se arrumar para o encontro. No dia seguinte ela voltou em minha casa. Seus olhos brilhavam. “Ah, Dona Maria, há tempos não me sinto tão feliz assim” ela confessou.
Depois de um tempo eles começaram a namorar. Um certo dia eu estava dentro de casa assistindo minha novela como de costume até que ouvi alguém batendo na porta. Quando a abri vi a jovem Rafaela sorridente e ao seu lado um lindo rapaz. “Dona Maria, esse é Lucas. Lucas essa é a Dona Maria” Não consegui responder, eu estava paralisada. Ele rinha o rosto muito parecido com o de meu marido e os olhos do rapaz era exatamente iguais. “É ele!” falei para Rafaela ”É ele?” ela perguntou sem entender. “Ele é meu filho!” falei com lágrimas nos olhos. O rapaz estava meio assustado. “Como sabe se sou seu filho?” ele perguntou sem jeito. “Você foi adotado? Você por acaso tem 26 anos? Seu aniversário é no dia 23 de outubro?” desatei a perguntar e ele apenas respondia acenando a cabeça afirmativamente para cada uma das minhas perguntas. “Como a senhora sabe de tudo isso?” “Por que você é meu filho!” ele estava confuso e eu estava eufórica com esta situação. “Vamos entrar” Rafaela disse “E então vocês podem conversar melhor” Entramos e então eu contei a história sobre meu filho raptado assim que nasceu, e então depois de ver que tudo que eu dizia batia com a realidade ele, Lucas topou e fazer um exame de DNA. Logo no dia seguinte fizemos o exame e na semana seguinte fomos buscar. Nós três, eu, Lucas e Rafaela fomo para minha casa. Eu abri o resultado do exame e lá estava! ele era realmente meu filho. Eu quase explodi de tanta alegria! Então, depois disso, Lucas veio morar em minha casa onde ficaria até mais próximo de sua namorada e minha grande amiga Rafaela.
Depois de dois anos que Lucas morava em minha casa nós já nos conhecíamos muito bem e nossa relação era como se nunca tivesse nos separado. Lucas e Rafaela já namoravam a dois anos e meio. Foi quando Lucas resolveu a levar até a cafeteria onde se conheceram e lá a pediu em casamento. Hoje já faz quatro anos que estão casados e me deram um casal de netos lindos, o Bruno e a Larissa. E agora, nem eu nem a Rafaela estamos mais sozinhas neste mundo, agora fazemos parte de uma família só.”
- A verdade é que nunca estivemos sós.
Reescrever.
(via
c-aligrafou)
“Oro a Deus não pedindo cargas mais leves, e sim ombros mais fortes. E tenho repetido que no que depender de mim, me recuso a ser infeliz.”